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Atualizado: há 14 minutos


Ao entrar naquela vila de ruas vazias e  casas brancas, todas perfiladas de frente para o rio; a quietude só era quebrada pelos ferros nos cascos do meu burro que martelavam as pedras do piso; ao final da rua, restava-me apenas a ponte a direita que conduziria-me a praça; ao fundo,  na capelinha de portas verdes abertas,  celebrava-se a missa de Domingo.


Na praça vazia, desmonto do animal, o corpo reclama das horas de montaria, ato o cabresto do bicho ao varão e busco um dos bancos, trazendo comigo a viola que a muito me acompanha nessas andanças de cantador, por esses caminhos sem fim que me levam de pouso em pouso oferecidos por aqueles que se deixam encantar pelas melodias e pelos causos.


Dali, eu podia escutar os cantos do povo na missa; tomei minha mágica viola e me pus a conferir sua afinação Rio Abaixo com seu som grave e profundo que sempre tocou o meu coração, tudo precisava estar pronto para quando as pessoas saíssem da igreja; terminado o tempo de devoção, a música teria seu espaço ali,  na praça, no centro, onde todo o povo se junta.


Quando nos últimos cuidados da afinação, me dei conta de que uma roda havia se formado ao meu redor, eu não havia percebido a chegada dos curiosos, agora com o final da celebração, uma pequena multidão vinha em minha direção, era hora de soltar os dedos e a voz para um encontro com aquela gente que eu desejava encantar com minha música. 


Quando o povo me arrudiou,  eu silenciei por uns eternos segundos, viola, boca e a alma, e quando a praça parou de respirar eu entrei ponteando minha viola, a música tocou fundo nos sentidos de todos e eu vi no rosto daquela gente aquele sorriso que quer dizer: “morrer agora não seria de todo ruim ” e foi aí que a vida estancou, restando só o sino da capelinha.


O Padre, ao fim das santas obrigações daquele Domingo, zeloso e detalhista, fecha a porta da capela, olha e ouve a pracinha morta, caminha com aquele jeito peculiar de padre e, lentamente, pé ante pé,  vai até o varão desatando o burro, e os dois se vão,  um em cada direção, deixando para trás a vila encantada, para sempre perdia rio abaixo.


Rogério Alves 


 
 
 

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