Fuga

Lá dentro, um raio acompanhado de um estalo seco me arrastou do mundo dos sonhos para mais um dia que, àquelas horas, ainda se confundia com a noite. Sem abrir os olhos, passei em revista as últimas horas que foram entrecortadas por sonhos renitentes, que em seus repetidos capítulos não achei a saída.
Ainda na cama, de olhos fechados e com um grande paralelepípedo no estômago, me via sem forças para levantar e uma imensa necessidade de sair correndo sem destino. Abrindo os olhos, sai da cama com um duplo twist carpado, caindo direto no chuveiro, na intenção de lavar a alma e dissolver a pedra da barriga.
Mas, o dia não espera e, sem cerimônia, trouxe consigo os compromissos que me exigirão cumprimento e respostas, queira eu ou não, e lá fui eu embarcar em mais uma sucessão de horas teimosas que se arrastam, afetadas por preguiça relojoeira. A friagem na barriga não passa e me persegue obstinadamente.
E na mente aturdida, surge vez por outra uma vontade juvenil de fugir, deixando tudo para trás, como se às tribulações e constrangimentos fossem frutos da vida malvada e não consequências de escolhas mal feitas uma a uma em determinado momento do cotidiano. Somos autores desse roteiro.
Em um raio de lucidez surge a indagação: fugir para onde se já empreendi várias fugas e nunca me senti livre? Me acompanharam às noites mal dormidas, o paralelepípedo, a ansiedade e a vontade de continuar fugindo se fez presente onde quer que eu estivesse. Não é o lugar, não são às pessoas, sou eu.
A solução é abrir esse baú que guarda dores e vasos quebrados e que em algum momento, lá atrás, tranquei e joguei fora a chave.
Rogério Alves


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