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O Gênio


Foi no finalzinho de um daqueles dias que se fazem enlouquecedores, destes que teimam em não findar mesmo diante do extremo cansaço, dos olhos ardentes e da dona paciência já ter te abandonado lá no início da tarde, que o homem se sentou, fechou os olhos e, dando um profundo suspiro, deixou a cabeça cair pesada para trás, permanecendo imóvel. 


Quem o olhasse de longe, poderia julgá-lo desacordado ou até mesmo “morto”; o seu respirar lento e superficial se mostrava suficiente apenas para a manutenção da vida; o sono, sorrateiro e oportunista, logo foi se aproximando e, com unhas e dentes, abocanhou a sua presa, que não esboçou nenhuma reação, entregando-se ao mundo mágico dos sonhos.


E logo Morfeu se fez presente na figura de um gênio, pronto a lhe conceder um único pedido, contrariando a tradição oriental dos três desejos. Diante da impossibilidade de múltiplas opções, surgiu a dúvida, o impasse e a incerteza a atormentar o pobre sonhador, vítima dos Oneiros que atuam sorrateiros, sob o comando do deus dos sonhos.


Diante da oferta genial era imprescindível uma decisão, uma escolha que o levaria a novos caminhos e a uma nova forma de caminhar. O que fazer? Mudar de vida radicalmente? Esquecer tudo já vivido até aqui? Abandonar as relações e os laços estabelecidos? É preciso coragem e desprendimento para uma mudança que realmente atue nas profundezas.


Àquela altura e diante da sua indecisão, o gênio totalmente impaciente batucava na mesa com a sua lâmpada, exigindo aos berros uma resposta: "Faça o seu pedido!”, “Você tem direito a um único pedido!”


- Meu bem! Meu bem!!! Acorda, vamos entrar, vai tomar um banho e se arrumar para o jantar, as crianças estão esperando você, amanhã cedo eles têm aula.


Abraçado à mulher, ele entrou em casa; na cabeça, ainda ecoavam as pancadas da lâmpada na mesa. Ao passar pela sala, as crianças se juntaram ao abraço, levando-o até a porta do banheiro. Quando a porta se fechou às suas costas, ele encostou-se a ela e pensou: Não, não quero mudar a minha vida, foi só um dia ruim, uma boa noite de sono me fará muito bem.


Não quero que nenhum “gênio” se meta na minha vida!


Rogério Alves 



 
 
 

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