Pé na Porta
- Rogério Alves da Silva

- 1 de mai.
- 2 min de leitura

Noite escura, chuvinha mansa, daquela que molha bobo e que já se arrasta há dois dias e três noites; as ruas, a essa altura, eram como brejos com imensas poças d’água que afogam as botinas dos que se aventuram lá fora; aqui dentro, ao lado do fogão a lenha, o frio faz trégua à espera da chegada do sono que me levará para uma cama bem sequinha.
Vez por outra, me arrasto até a janela e, ao olhar a chuva lá fora, vejo, com o escoar das horas, que menos e menos luzes resistem e vão sendo extintas, até que lá pelas tantas, nenhuma havia sobrevivido e a escuridão desabou pesada sobre as ruas e casas. O frio da meia noite se fazia cortante, minhas velhas botinas afogadas congelavam os meus pés.
O sono, como aquelas visitas que chegam de mala e cuia sem avisar, bateu na minha porta e eu o recebi com um abraço bem apertado de boas-vindas; sem nos largarmos, fomos juntinhos para a cama. Ali deitado, fui me ajeitando, o farfalhar da palha do colchão era ensurdecedor diante do frio silêncio da noite; quando aquietei escutei o ronco ameaçador do rio.
Ao soprar o fogo da lamparina, a cegueira se fez; com esforço infantil, calei o colchão na intenção de vigiar o rio que me parecia cada vez mais assustador e próximo. Mergulhado na escuridão total, pensei em me levantar e dar uma espiada no rio que passava atrás da casa, sentei na cama e, ao pisar no chão, senti a lama fria vazar por entre os dedos dos pés.
Ao chegar na janela, não via um palmo além do nariz; na soqueira de banana, a água marulhava e já estava ao alcance da minha mão, a chuva caía impiedosa. Com a enchente já dentro de casa, fui até a porta da sala e constatei que até onde a minha vista abarcava, era só escuridão, nenhuma viva alma nas ruas. A noite se foi nas águas até desaguar no dia.
O cheiro do café meteu o pé na porta do meu escritório e entrou aos gritos: “é hora de largar a caneta, de cuidar dos afazeres e atender os compromissos do dia”. E lá fui eu correr atrás, matar um leão, ganhar o pão de cada dia… Contrariado, tive que abandonar a história, saí correndo em luta contra os ponteiros das horas, mas eles são dois quenianos e um etíope.
É quase impossível vencê-los!
Rogério Alves

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