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Conspiração, Saudade e Solidão

A estas horas, já deveria ser dia, mas a noite pirracenta batia o pé

insistindo em permanecer.

A escuridão, já fora de hora, só era quebrada

pelo riscar nervoso dos raios, que antecediam aos trovões amedrontadores.


A chuva grossa se mostrava inesgotável.

No intervalo dos trovões,

era possível escutar o correr apressado das enxurradas no canto do terreiro

e, pelo barulho, era possível mensurar a grossura da chuva.


Um tanto tímido e vergonhosamente atrasado,

o dia vinha fazendo força em empurrar a noite

para desvendar tudo o que ela ocultava em uma escuridão renitente.


Agora, quando o dia já era quase realidade,

uma fome impaciente me levou para tomar café,

me retirei finalmente da janela e, por força da ansiedade,

fui encarar o dia que eu tanto ansiava e que deveria ser cheio de boas novas.


Eu não podia imaginar que aquele dia me traria uma experiência

impactante e marcante, que influenciaria o resto daquela minha vida

e as futuras,

chegando até a vivida agora, onde pela primeira vez e finalmente,

me lembrei integralmente daquele fatídico dia,

de suas tristes consequências e repercussões.


Antes de sair de casa, calcei as botas e coloquei a capa.

No canto do pátio à porta do celeiro,

um serviçal segurava meu chapéu em uma das mãos

e meu cavalo pronto para minha ida à Vila,

mesmo com aquela chuva batuqueira que caía forte das abas dos telhados.


Depois da noite em claro, decidido,

montei e rapidamente peguei a estrada, deixando tudo e todos para trás.

No caminho, resmungava lamentando não ter podido comparecer

à reunião da noite anterior,

agora, mesmo sob o aguaceiro e a estrada lamacenta,

ao chegar à Vila eu finalmente tomaria ciência do teor da reunião

da véspera.


Ao entrar na rua Direita, estranhei a movimentação

que mesmo num dia chuvoso deveria ser maior que aquela.

Marchando lentamente, antes de chegar à praça,

vi meus passos serem interditados por fila grossa de soldados.

Parando, quis retornar em fuga, mas, ao olhar para trás,

pude ver que outro grupo bloqueava a rua

decidido a me conter a qualquer custo.


Ali, na rua quase vazia, fui preso e conduzido à cadeia

onde permaneci por dias, acusado de conspiração, traição e roubo.

Os interrogatórios foram marcados pela dor

causada pelos métodos violentos utilizados.

Por três semanas Intermináveis, os interrogatórios diários se repetiram.


Até que, naquela manhã, ao ouvir os passos dos guardas,

me preparei para mais um dia de dor.

Mas, me surpreendi ao ser colocado a ferros

e conduzido a ensolarado pátio interno da cadeia, onde fui vendado.

Ali, eu pude ver claramente que as torturas haviam chegado ao fim.


O Sol me aquecia, um silêncio profundo tomou conta da minha alma,

todos os ruídos foram como que se distanciando,

amortecidos por um saber ser o fim,

até que senti múltiplas pancadas no meu peito.

Só depois dos socos escutei o estrondo dos disparos das armas

do sórdido pelotão.


A morte não me foi dolorosa, o sol até me alegrou.

O que me afetou realmente, de forma traumatizante,

foi nunca mais ter sabido de notícias,

do destino da minha esposa e de meus filhos, nada,

desde aquele fatídico dia que havia se atrasado para amanhecer,

como que impedido pela noite teimosa

que buscava quem sabe me preservar.


A morte sempre nos encontra onde nós menos esperamos;

e nós sempre vamos ao seu encontro onde ela nos aguarda.

Rogério Alves





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